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Quem quer entender o destino, tem de sobreviver a ele.
Clean
August 18, 2008 12:06 PM PDT
itunes pic

[[ foto by dedo]]

Isto estava gravado ha bastante tempo...
Pensei muito nesse txt enquanto tive no hospital...
Mas, soh ontem...
pareceu fazer algum SENTIDO...


-=-=-=-=-=-=-=-=-

60. "- Na praia, uma criança constrói um castelo de areia. Por um momento, contempla admirada a sua obra. Depois destrói tudo e constrói um outro castelo. Da mesma forma, o tempo permite que o globo terrestre realize seus experimentos. (...); aqui os acontecimentos foram gravados na memória das pessoas, e depois novamente apagados. Na Terra, a vida pulsa de forma desordenada, até que um belo dia nós somos modelados... com o mesmo frágil material de nossos antepassados. O sopro do tempo nos perpassa, nos carrega e 'se incorpora' a nós. Depois se desprende de nós e nos deixa cair. Somos arrebatados como num passe de mágica e depois novamente abandonados. Sempre há alguma coisa fermentando, à espera de tomar nosso lugar. Isso porque não temos um solo firme sob os nossos pés. Não temos sequer areia sob os pés. Nós 'somos' areia."
61. "- Não há um lugar onde possamos nos esconder para escapar do tempo - continuou meu pai. - Podemos escpar de reis e imperadores, e talvez até de Deus. Mas não podemos escapar do tempo. O tempo nos enxerga em toda a parte, pois tudo à nossa volta está mergulhado nesse elemento infatigável."
62. "- O tempo não passa, Hans-Thomas, e não é um relógio. 'Nós' passamos e são os 'nossos relógios' que fazem tique-taque. O tempo vai devorando tudo através da história, silenciosa e inexoravelmente, como o sol se levanta no Leste e se põe no Oeste. Ele destrói civilizações, corrói antigos monumentos e engole gerações atrás de gerações. Por isso é que falamos dos 'dentes da engrenagem do tempo': o tempo mastiga, mastiga... e somos 'nós' que estamos no meio de seus dentes."
63. "- Por um breve espaço de tmepo fazemos parte da extraordinária agitação deste mundo. Andamos pela Terra como se isso fosse a coisa mais evidente do mundo. (...)? Mas toda aquela agitação vai desaparecer. Vai desaparecer e ser substituída por outra, pois sempre há outras pessoas prontas, à espera. Sempre surgem novas idéias. Nenhum tema se repete, nenhuma composição é escrita duas vezes... Nada é tão complicado e tão precioso quanto um ser humano, meu filho. Apesar disso, somos tratados como futilidades baratas!"
64. "(...) - Cumprimentamo-nos e sorrimos uns para os outros como se quiséssemos dizer: 'Oi, aqui estamos nós vivendo juntos nesse momento! Dentro da mesma realidade... ou da mesma história'. (...)? Vivemos num planeta no universo. Mas logo seremos varridos do tabuleiro. Abracadabra e... pronto! Desaparecemos."
65. "- Se nós vivêssemos em outro século - prosseguiu meu pai -, dividiríamos nossas vidas com outras pessoas. Nesse momento só podemos cumprimentar, sorrir e desejar bom -dia para milhares de nossos contemporâneos: 'Ei, você! Que coisa fantástica podermos compartilhar do mesmo tempo!'. Talvez algum dia eu esbarre em alguém. E nesse momento eu abra uma porta e diga: 'Olá, alma minha!'. (...). - Estamos vivos, ouviu bem? Mas só por esta vez. Podemos dizer, de braços abertos, que existimos. Mas logo somos colocados de lado e enfiados no saco das trevas da história. Pois somos criaturas sem retorno. Somos parte de um eterno baile de máscaras, em que os mascarados vêm e se vão."
66. "- Você acredita que haja alguma coisa que não possa ser levada como a areia do castelo que a água do mar destrói?
(...)
- 'Aqui' - disse ele, e apontou para sua cabeça. - Aqui dentro tem alguma coisa que não pode ser levada.
(...)
- O pensamento não pode ser levado, (...)? Os filósofos em Atenas achavam que também há uma coisa que 'não' passa. Platão chamava isso de o mundo das idéias. Pois não é o castelo de areia a coisa mais importante na brincadeira da criança. O mais importante é a 'imagem' de um castelo de areia que a criança tem na cabeça antes de começar a construir o castelo. Por que outras razão você acha que ela destrói com as mãos o castelo que acabou de construir?"
67. "- Nunca aconteceu a você de querer desenhar ou construir alguma coisa e não conseguir fazer isso direito? Você tenta mais uma vez, tenta outras vezes, mas nunca dá certo. Isso se explica pelo fato de que a imagem que você tem do que quer fazer sempre é incomparavelmente superior às cópias a que você tenta dar forma com as mãos. E o mesmo ocorre com tudo o que vemos à nossa volta. Trazemos dentro de nós a noção de que tudo que vemos à nossa volta poderia ser melhor do que é."
68. "- Porque trazemos em nós todas as imagens do mundo das idéias. É lá a nossa verdadeira morada, entende? E não aqui embaixo, no meio da areia, onde o tempo apanha e devora tudo o que amamos.
- Quer dizer que existe um outro mundo?
(...)
- É lá que estava a nossa alma antes de vir habitar um corpo. E é para lá que ela vai voltar quando o o corpo sucumbir à ira do tempo.
(...)
- Pelo menos era o que achava Platão, um dos maiores filósofos gregos. Nossos corpos têm o mesmo destino dos castelos de areia. Quanto a isso não há o que fazer. Mas temos uma coisa em nós que o tempo não consegue corroer. E não consegue porque ela não pertence a este mundo. Precisamos voltar nossos olhos para além e para cima do que vemos à nossa volta. Precisamos enxergar aquilo de que tudo à nossa volta é apenas uma imitação."